Cadeia Produtiva do Leite e Mercado Mundial de Bovinos de Corte

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Cadeia Produtiva do Leite e Mercado Mundial de Bovinos de Corte

Cadeia Produtiva do Leite e Mercado Mundial de Bovinos de Corte

Cadeia Produtiva do Leite

Gerenciamento da produção e qualidade do leite. Os aumentos de produção e de produtividade bovinas pelo incremento da eficiência nos processos de melhoramento genético e dos controles sanitário, reprodutivo e nutricional dos animais tornam-se possíveis e facilitados pelo uso de tecnologias de informação que viabilizem maior rapidez na geração, envio e/ou tratamento dos dados zootécnicos. A transparência e rapidez do fluxo de informação contribuem para maior eficiência de todos os segmentos componentes das cadeias de produção animal, podendo resultar não só na melhoria do gerenciamento, mas também na maior segurança de qualidade do alimento.

No caso da cadeia produtiva do leite no Brasil, apesar dos avanços observados durante a década de 90, aspectos associados à melhoria da qualidade do produto ainda representam desafios a serem superados. A indústria leiteira nacional caracteriza-se por rebanhos que diferem em tamanho, condições de manejo, condições climáticas regionais, estrutura comercial e atitude gerencial. A busca pela qualidade tem mudado o nível de tecnologia nas unidades de produção, promovendo o uso de ordenhadeira mecânica e tanques de resfriamento. A indústria mudou o perfil da coleta de leite, adotando a granelização, e, ainda que de uma forma tímida, tem estimulado a adoção do pagamento pela qualidade, com critérios baseados na qualidade (resfriamento, análise bacteriana e dos componentes) e volume da produção.

A matéria-prima ou produto comercializado origina-se da mistura (ainda na fazenda) da produção de vários animais, o que significa realizar o monitoramento do rebanho, para se garantir que o leite é seguramente produzido desde a ordenha. Isto implica o estabelecimento de um programa de qualidade a nível dos rebanhos, envolvendo a garantia de que os animais recebem alimentos adequados e seguros, a prevenção no uso de aditivos e agentes potencialmente contaminantes para o leite, e a certeza de que todas as vacas estejam saudáveis. Deve-se ainda orientar o manuseio do leite desde a ordenha até o seu processamento final de forma que os seus parâmetros de qualidade permaneçam inalterados. Neste contexto, a implementação do sistema APPCC em propriedades leiteiras e na indústria de laticínios significaria um avanço na garantia de qualidade dos produtos lácteos, mas a introdução desta ferramenta de gestão em fazendas leiteiras ainda enfrenta dificuldades, no curto prazo, quanto à organização das informações e monitoramento do processo.

A melhoria da qualidade do leite cru tem sido um tema da maior relevância, refletindo a mudança de paradigma que experimenta o agronegócio do leite no Brasil. As perspectivas de avanço tecnológico são permeadas pelo envolvimento de todos os setores da cadeia, de forma colaborativa e associativa, com legítimas representações técnica, política e institucional. A própria indústria de laticínios tem manifestado interesse nas medidas de avaliação da matéria-prima, para implementar o pagamento por qualidade de leite aos produtores e expandir a área de controle sanitário dos rebanhos. A mudança de enfoque iniciada com as medidas de estímulo ao resfriamento e granelização se complementa com a adoção de controle baseado em análise laboratorial de amostras de leite, para se obter resultados de composição físico-química e contagem de células somáticas, além das técnicas convencionais de plataforma.

Sistemas de informação: rastreamento e controle sanitário nos rebanhos A demanda por competitividade e a tendência de modernização dos sistemas de produção em busca da melhoria da eficiência é consequência direta da abertura de mercados e da economia e da informação globalizada. Neste contexto, a informação assume importância vital para os diversos segmentos da cadeia produtiva, mas especialmente para o setor de produção primária, uma vez que este é o elo que se encontra menos preparado para as mudanças que têm sido impostas. Este setor, além de possuir pouca tradição no uso de informações é carente no tocante à coleta de dados e, principalmente, no tratamento dos dados coletados.

A estruturação de bancos de dados com informações nacionais é uma realidade nos países de pecuária caracterizada por eficiência técnico-econômica e competitividade no cenário internacional. Com o crescimento do comércio de animais entre rebanhos e, particularmente, entre países, observa-se, atualmente, a nível internacional, uma preocupação com os sistemas de identificação animal, e sua eficiência no manejo e seleção dos recursos genéticos, e principalmente no controle e erradicação de doenças que necessitam de procedimentos precisos no monitoramento e rastreamento de animais na eventualidade de sua ocorrência.

Um sistema nacional de registro sanitário de rebanhos leiteiros comparável com sistemas existentes na América do Norte ou Europa ainda não existe no Brasil. Não há estatísticas que permitam caracterizar a incidência e prevalência de doenças infecciosas, importantes para o monitoramento e controle do estado sanitário do rebanho. Os programas de controle sanitário envolvem medidas preventivas, vacinações para determinadas doenças e exames de rotina nos animais, associadas a outras práticas de manejo da alimentação, reprodução etc. O monitoramento da sanidade é realizado sobre os animais, e, por extensão, sobre os rebanhos e as populações. Os registros individuais dos animais são essenciais para se identificar e caracterizar eventuais problemas e a sua natureza. Neste sentido, avaliações rotineiras permitem o diagnóstico de doenças clínicas e subclínicas, e o seu registro viabiliza o monitoramento e análise dos problemas de saúde do rebanho.

No contexto da sanidade dos rebanhos, a prevenção se estabelece por um sistema de alimentação e manejo adequados e programas de vacinação para determinadas doenças. Outras ações consistem de análises laboratoriais, para o diagnóstico de doenças clínicas, e, ainda, a análise periódica de indicadores que permitem o controle de estado sanitário do rebanho e a sua certificação, em termos de padrões e referenciais estabelecidos para este objetivo. Portanto, a sanidade do rebanho é monitorada por meio dos registros de desempenho e laboratoriais, medicamentos e vacinações aplicadas aos animais e visitas regulares de inspeção veterinária.

Legislação e controle de qualidade

De modo geral, os países têm estabelecido a sua própria legislação para monitorar a higiene e qualidade dos produtos agropecuários, para atender os interesses públicos em proteger os consumidores e garantir que os produtos que lhes são ofertados sejam saudáveis e seguros. Na concepção moderna de produção de alimentos é importante, senão indispensável, que se viabilize a possibilidade de seu rastreamento. No caso da comercialização internacional da carne, a União Européia, por meio da Resolução CE 820/97, exige que todo o processo de produção esteja inserido em um programa de identificação e registro que possibilite o levantamento de todas as informações sobre o animal, desde o seu nascimento até o consumo do produto final. Tal Resolução atinge tanto aos produtores e indústrias da Europa quanto dos países dos quais importa e ainda verifica-se uma tendência mundial de aplicação de exigências nesse sentido.

As questões relacionadas com a saúde e as consequências ambientais provenientes de atividades, produtos e serviços de quem disponibiliza alimentos, quer sejam processados quer sejam in natura, têm resultado na evolução dos conceitos e em maior conscientização do consumidor, induzindo à incorporação de estratégias que buscam o acompanhamento da produção em todo seu processo, com tendência clara de favorecimento dos alimentos de boa aparência, de preferência sem conservantes, produzidos sem agrotóxicos e sem risco para o ambiente.

Tecnologias e insumos modernos, como hormônios, produtos biotecnológicos e antibióticos, mais intensamente aplicados na produção agropecuária, ante os resultados potenciais no aumento da produtividade, devem ser obrigatória e constantemente avaliados para não acarretarem riscos para a saúde humana. Não se pode ignorar as exigências concernentes à segurança para o consumidor e também as barreiras fitossanitárias impostas pelas exigências atuais do mercado internacional.

Tudo isto faz com que o consumidor exija o rastreamento do alimento dentro da cadeia produtiva, requerendo, ainda, que o processo seja transparente. Nesse contexto, a padronização de conceitos e, principalmente, de ações, constitui-se em tema de importância estratégica para o País, viabilizando a disponibilização de alimentos certificados, ou seja, com garantia de origem, de qualidade ambiental e de qualidade de produto.

No caso da cadeia produtiva do leite, as transformações recentes têm induzido os produtores em busca de maior competitividade, e as suas percepções sobre maior volume, produtividade e qualidade da matéria-prima têm evoluído. A atividade leiteira avançou em produção e produtividade, entretanto, caminhou pouco para melhorar a qualidade, em que pese o processo da granelização da coleta do leite e a tentativa de implementação de um programa nacional de melhoria da qualidade do leite.

A qualidade do leite ainda é uma questão fundamental, tanto pela exigência do consumidor quanto pela restrição que ela representa, caso o País queira exportar derivados lácteos. Mesmo que a disponibilidade de recursos naturais possibilite ao Brasil ter excedentes exportáveis, isto dificilmente ocorrerá em escala significativa no curto prazo, dado o atual padrão de qualidade do leite produzido. Exigências da legislação elaborada pelo Departamento de Inspeção de Produtos Origem Animal da Secretaria de Defesa Agropecuária do MAPA – DIPOA/SDA/MAPA e do mercado têm provocado modificações no entendimento e no trabalho realizado pelo setor de controle de qualidade dos laticínios no Brasil. A adequação às normas internacionais, a certificação da qualidade, a sobrevivência em um mercado competitivo e maior nível de exigência dos consumidores têm levado à valorização do controle de qualidade. Um avanço significativo neste sentido foi a criação da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite, com atribuições de realizar análises laboratoriais para fiscalização de amostras de leite cru, recolhidas em propriedades rurais e em estabelecimentos de laticínios.

Sistema brasileiro de identificação e certificação de origem bovina e bubalina - sisbov Recentemente, o governo brasileiro por meio de instrução normativa elaborada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou uma Instrução Normativa criando o SISBOV – Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina, que tem como objetivo identificar, registrar e monitorar, individualmente, os bovinos e bubalinos nascidos no Brasil ou importados. O Sisbov constitui-se de uma série de ações, medidas e procedimentos para caracterizar a origem, o estado sanitário, a produção e a segurança dos produtos de origem bovina ou bubalina, objetivando regulamentar o rastreamento no Brasil. Esta iniciativa brasileira é resultado de uma demanda que se iniciou na União Européia e vem se expandindo entre os principais países e regiões de produção e importação. Neste contexto têm sido estabelecidos códigos de comercialização internacional da carne bovina, observando-se os requerimentos sanitários como garantia à sua segurança para o consumo.

As orientações normativas do Sisbov caracterizam as regras para credenciamento de entidades certificadoras do sistema de rastreabilidade. Para seu atendimento a certificadora deve estruturar um sistema ou banco de dados, para gerenciar um conjunto de informações, por rebanho, com identificação individual de cada animal e seu rebanho de origem, o mês de nascimento ou data de seu ingresso na propriedade, sexo, aptidão, sistema de criação e de alimentação, e informações referentes ao controle sanitário a que o animal foi submetido.

No contexto da produção de carne, já se iniciaram gestões para se implementar a rastreabilidade, envolvendo produtores e criadores, frigoríficos e distribuidores. Também se observa a iniciativa de empresas do setor privado em prestar o serviço de identificação de animais, estruturando-se como certificadoras, estabelecendo parcerias e buscando o seu credenciamento oficial perante o MAPA. Atualmente sete certificadoras já foram credenciadas pelo MAPA. No caso da pecuária de leite, pode-se dizer que a rastreabilidade ainda está em sua fase de planejamento, e tem características próprias, distintas da carne, devido às particularidades do sistema de produção e do produto leite em si. Na medida em que se avançar nos procedimentos e processos para a rastreabilidade na pecuária de corte, acredita-se que deverão ser estendidas ações similares para a organização da informação e rastreamento em bovinos de rebanhos leiteiros, contemplando inclusive os registros dos resultados das análises laboratoriais de amostras de leite de animais.

Importância Econômica e social da Atividade Leiteira

Importância Econômica e social da Atividade Leiteira

O leite e seus derivados representam uma das principais fontes de proteína e cálcio na dieta da população brasileira, especialmente para classes de menor poder aquisitivo. Além disso, a atividade leiteira caracteriza-se por ser grande geradora de emprego, renda e tributos.

As condições edafoclimáticas do País permitem que a bovinocultura de leite seja desenvolvida em todo o seu vasto território, adaptada às peculiaridades regionais, de forma atomizada e, predominantemente, por pequenos e médios produtores. O último censo agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2007) identificou no País 1,8 milhão de propriedades leiteiras. A pecuária de leite está presente em aproximadamente 40% das propriedades rurais do Brasil.

Admitindo-se que a produção primária ocupa mão-de-obra de, pelo menos, duas pessoas por propriedade, pode-se afirmar que somente esse segmento da atividade leiteira gera 3,6 milhões de postos de trabalho permanentes.

Para 2010, as estimativas da Comissão Nacional de Pecuária de Leite (CNPL) da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam que a produção de leite será de 36 bilhões de litros. O Valor Bruto da Produção de leite in natura será de aproximadamente R$ 10 bilhões.

De acordo com estudos do Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite (CNPGL) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em 1996, o faturamento do setor de leite e derivados foi de R$ 17,34 bilhões, descontando-se os impostos indiretos líquidos e as margens de transporte e comercialização. Naquele ano a arrecadação de ICMS sobre o setor foi de R$ 3,1 bilhões, correspondendo a 4% do total arrecadado com esse imposto.

O estudo ainda demonstra que o Sistema Agroindustrial do leite apresentou indicadores favoráveis em termos de multiplicação da produção e emprego, em comparação aos demais setores, bem como se mostrou relevante em termos de geração de renda. Além do mais, o setor demonstrou-se capaz de gerar novos postos de trabalho por valores reduzidos. A cada aumento na demanda final por leite e derivados, de R$ 5.080,78, um emprego permanente é gerado na economia.

Os resultados do trabalho da Embrapa evidenciam que as políticas públicas, que visem gerar emprego e renda, devem tomar a atividade leiteira como prioritária.

Esquema de partes comerciais de um bovino

Bovinos e suas Funções no Mercado Mundial  


Bovino

Em várias religiões antigas, o boi e a vaca são animais carregados de significado simbólico relacionado a ritos religiosos. Assim, no Egito se incluía entre as divindades a vaca Hathor, encarnação da Grande Mãe celestial. O culto hindu à deusa Sarasvati identifica o bovino com a Terra e o Sol. Bovino é um mamífero ruminante da ordem dos artiodáctilos e da família dos bovídeos, dotado em geral de chifres constituídos por substância córnea, ocos em quase toda sua extensão. A terminologia normalmente empregada em pecuária designa por touro o macho não castrado, a partir de dois anos, destinado à reprodução; vaca é a fêmea depois da primeira parição; os machos castrados são chamados novilhos de corte ou, se destinados à tração, bois. Bezerros (ou terneiros) são os recém-nascidos até a desmama. No Brasil central, da desmama aos 24 meses a denominação comum é garrote. A fêmea, do ponto de enxerto até a primeira cria, denomina-se novilha.


Características

Animais de grande porte, os bovinos apresentam tronco volumoso e pesado, com o ventre muito desenvolvido. A cauda é longa e fina e apresenta, na extremidade, um tufo de pêlos longos. Os membros, relativamente curtos e com articulações salientes, terminam em cascos fendidos. O segundo e o terceiro dedos se apóiam no chão, enquanto que o primeiro e o quarto são rudimentares e se apresentam como terminações córneas na parte posterior dos membros. A coluna vertebral é composta de sete vértebras cervicais, 13 a 14 dorsais, seis lombares, cinco sacrais e 18 a 20 coccigianas. As costelas são longas, achatadas e arqueadas, em número correspondente ao das vértebras dorsais (13 a 14 pares). Não há dentes incisivos superiores nem caninos, mas apenas seis incisivos inferiores e 24 molares. O estômago ocupa quase três quartos da cavidade abdominal e divide-se em quatro compartimentos: rume ou pança, retículo, folhoso e coagulador. A capacidade do estômago varia com a idade e o porte do animal e pode atingir mais de 200 litros. O rume, que representa oitenta por cento do volume do estômago, é uma verdadeira câmara de fermentação, onde os alimentos são atacados por variadíssima fauna e flora microbianas, o que produz decomposições e sínteses de proteínas e vitaminas. Dentre esses microrganismos há bactérias capazes de digerir a celulose, o que permite aos bovinos ingerir grandes quantidades de alimentos fibrosos, como palha, feno e capim. O período de gestação dura de 283 a 290 dias, conforme a raça, e o primeiro parto dá-se aos dois ou três anos de idade. O filhote caminha logo após o nascimento e desde o primeiro dia se alimenta de colostro, leite de cor avermelhada muito rico em nutrientes. Deve ingerir diariamente dez por cento de seu peso em leite até os noventa dias, quando pode começar a alimentar-se de pasto e forragem.

História

Não se sabe ao certo quando o homem passou a utilizar bovinos, mas na pré-história europeia, há cerca de trinta mil anos, já eram caçadas espécies selvagens. Existem desenhos primitivos desses animais nas paredes das cavernas ou em pedras. Acredita-se que o boi tenha sido um dos primeiros animais domesticados, devido a sua utilidade na agricultura. Em 5000 a.C. os babilônios possuíam gado vacum, assim como os egípcios em 3500 a.C.

No antigo Egito, havia pelo menos duas raças de origem europeia e uma zebuína. O boi Ápis, considerado encarnação do deus Osíris, era negro, com pêlos duplos na extremidade da cauda, a figura de uma águia branca no dorso, um crescente branco na testa e o desenho de um escaravelho na mucosa bucal. Na Índia, o zebu é sagrado desde tempos imemoriais. O selo de cobre de Mohenjo-Daro, descoberto às margens do Índus e datado de mais de 3000 a.C., traz a estampa de um touro com chifres semelhantes aos da raça guzerá. Os indianos bebem leite de vaca, mas não comem carne bovina. Na China já se importavam bovinos em 3400 a.C. e sua criação deve ter sido responsável pela prosperidade do país na antiguidade.

A Grécia pré-clássica já possuía rebanhos bovinos. Nos tempos de Homero, o boi era a medida pela qual se avaliavam as fortunas e servia como moeda. Os dotes eram frequentemente pagos em bois, costume que perdura entre povos asiáticos e africanos. Os lacedemônios sacrificavam um boi a Áries cada vez que obtinham uma vitória por meio da astúcia. Em Creta, terra de origem da lenda do Minotauro, surgiram provavelmente as primeiras lutas com touros, esporte que se disseminaria depois pela zona mediterrânea. O carro real dos etruscos era puxado por um touro branco, que simbolizava a força e a bravura, e por uma vaca da mesma cor, símbolo da fartura. Na Roma antiga, era proibido matar bois destinados ao trabalho, mas havia o costume de imolar bois brancos a Júpiter Capitolino depois de uma vitória militar. As cabeças dos bois imolados eram suspensas às portas dos templos. Antes do sacrifício, os romanos adornavam os chifres dos animais. As pessoas que não podiam pagar o preço de um animal sacrificavam uma imagem moldada em farinha.

Após a queda do Império Romano, a criação de gado declinou muito na Europa, situação que perdurou até o século XVII. A veneração religiosa explica a pouca vulgarização do consumo de carne bovina durante tantos séculos, com a consequente decadência da bovinocultura. Depois da invenção da refrigeração industrial, em 1868, o consumo de carne popularizou-se rapidamente.

A criação de gado vacum expandiu-se notavelmente no continente americano, principalmente no Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos e México, onde encontrou situação ecológica favorável. No Brasil, o gado bovino foi importante fator de desbravamento, de dilatação de fronteiras e de alimentação rica em proteínas. No final do século XX, os rebanhos bovinos ainda eram uma das principais fontes de riqueza do pampa sulino, do pantanal mato-grossense, da ilha de Marajó, dos campos e cerrados do Centro-Oeste e da caatinga nordestina.

Domesticação Para as regiões em que as condições do solo -- terras ácidas ou pobres em nutrientes -- ou a posição geográfica de difícil acesso tornam pouco econômica a instalação de lavouras, a pecuária é a solução ideal. Permite a ocupação de vastos espaços inexplorados com escassa mão-de-obra e sem meios de transporte, já que os rebanhos podem deslocar-se por grandes distâncias. Dentre as espécies de bovinos domesticadas, destacam-se três: o boi comum ou europeu (Bos taurus), provavelmente uma subespécie do auroque (B. primigenius), cujo habitat nos tempos pré-históricos estendia-se pela Europa e parte da África; o zebu ou boi indiano (B. indicus), dotado de giba, habitante natural das regiões tropicais, domesticado provavelmente na Ásia em épocas remotas; e o búfalo (Bubalus bubalis), criado no sul da Ásia.

O boi europeu tem pêlos longos, couro espesso, chifres curtos e pelagem pouco pigmentada. O indiano tem pêlos mais curtos e lisos, couro mais fino e pigmentado, barbela desenvolvida e giba. É provável que as duas espécies tenham se cruzado, em tempos remotos, dando origem a grande número de variedades, que de acordo com suas características se adaptaram a diferentes regiões. Os cruzamentos entre as espécies foram depois promovidos pelo homem, a fim de combinar a resistência do boi indiano aos climas quentes com a melhor produção leiteira do gado europeu. Considera-se que a zootecnia moderna surgiu na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, quando se inventaram técnicas que permitiam a conservação de alimentos perecíveis e passou-se a empregar novas plantas forrageiras como alimento do gado. A expansão das populações urbanas que se seguiu à revolução industrial trouxe maior demanda de alimentos e incentivou os ingleses a produzirem mais carne.

Outros países começaram a desenvolver técnicas de melhoramento do gado europeu, para corte e produção de leite, além de aprimorar o alimento das reses e suas condições sanitárias. Assim, as raças europeias tornaram-se muito produtivas e foram o ponto de partida dos excelentes rebanhos surgidos depois nos Estados Unidos, Canadá, Argentina, Uruguai, Brasil, Austrália, Nova Zelândia e sul da África.

As raças europeias, em climas adversos, perdem a resistência e não revelam as qualidades de que são portadoras por herança genética. O zebu, pelo contrário, embora por motivos religiosos não tenha sido submetido a processos de melhoramento em seu lugar de origem, adaptou-se bem às regiões onde o boi europeu encontrava dificuldades de aclimatação, especialmente nas zonas tropicais e subtropicais. A seleção da espécie só começou por volta de 1920, mas deu ótimos resultados. O Brasil foi muito beneficiado pela importação de zebus, iniciada no final do século XIX. Esses bois encontraram no país condições de alimentação, de defesa sanitária e aplicação de procedimentos zootécnicos superiores às existentes em seu país de origem. Puro ou cruzado com o boi europeu, concorreu para a multiplicação dos rebanhos por ser resistente e fecundo. Outros países tropicais dedicaram-se a programas de melhoramento do zebu, para carne e leite, obtendo excelentes raças provenientes da combinação de suas qualidades com as do boi europeu.

O búfalo doméstico é originário da Ásia e descende provavelmente do arni (Bubalus arni), ainda encontrado em estado selvagem na Índia. Levado à Europa no primeiro milênio da era cristã, expandiu-se pelo sul da Rússia, Balcãs, Turquia e Egito, bem como pelo oriente asiático, Myanmar, Indochina, Java, Sumatra, Nova Guiné e Filipinas. Sua entrada no Brasil, onde é explorado para produção de leite e carne, data de fins do século XIX ou dos primeiros anos do século XX. Encontram-se grandes rebanhos no estado do Pará e na ilha de Marajó, além de pequenas boiadas em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná.

Raças Em zootecnia, a classificação em raças é, em boa parte, arbitrária e convencional, pois se baseia em traços superficiais como coloração dos pêlos, conformação craniana, presença de chifres ou procedência geográfica. Com a aplicação de técnicas destinadas ao aprimoramento das características de importância econômica, como produção de leite e carne, os melhores espécimes adquirem propriedades inerentes a essas funções, que deixam de ser distintivos raciais para se tornarem características próprias de bons animais de qualquer raça. Segundo sua destinação econômica, as raças bovinas são em geral classificadas em três grupos: raças leiteiras, como a holandesa, suíça, jersey e guernsey entre as europeias; sahiwal e red-sindhi, entre as indianas; raças de corte, como hereford, charolesa e aberdeen, europeias, e nelore e santa gertrudis, de sangue asiático; por último, entre as raças de dupla aptidão estão as europeias simmental, red polled e normanda, além das indianas gir e guzerá. Existem ainda os animais de tração, muito empregados no Brasil e em outros países com agricultura não mecanizada. Na Índia há raças especializadas em tração, como nagore, bachaur, malvi e kangayam, esta última a única introduzida no Brasil.

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