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Folha Artificial Transforma CO2 em Metanol

Folha Artificial Transforma CO2 em Metanol

Folha Artificial Transforma CO2 em Metanol

Pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, desenvolveu uma “folha artificial” que é capaz de transformar gás carbônico (CO2) em Metanol. O processo, que é inspirado nas folhas das plantas, “imita a fotossíntese” mas é 10 vezes mais eficiente, segundo Yimin Wu, professor de engenharia que liderou a pesquisa.

Publicada na Nature Energy, os cientistas explicam como funciona um novo processo que cria folhas artificiais, inspirada na fotossíntese, que pode produzir combustível neutro em carbono a baixo custo. O Processo  "Imita folhas naturais", diz Yimin Wu, professor de engenharia da Universidade de Waterloo, que liderou a pesquisa. "Estamos usando dióxido de carbono, água e luz solar como insumo e produzindo metanol e oxigênio como produto".

O pesquisador pretende usar gás carbônico produzido pela indústria do aço, automotiva ou de petróleo, convertendo o “lixo” em produtos químicos úteis. Além do benefício econômico, o processo pode ajudar a combater o aquecimento global, reduzindo as emissões de carbono e fornecendo uma fonte de energia sustentável.

O processo é 10 vezes mais eficiente que a fotossíntese em uma planta. Os pesquisadores não são os únicos cientistas que trabalham com esse tipo de tecnologia, que é uma maneira de fazer uso dos bilhões de toneladas de excesso de CO2 na atmosfera. A Climeworks, uma startup que retira CO2 do ar usando a captura direta de ar, está atualmente colaborando com outras pessoas para estudar a viabilidade de uma nova planta que transformará esse CO2 em combustível de aviação renovável. Outra startup, chamada Carbon Engineering, também está começando a produzir combustível de aviação a partir do CO2 capturado. Outros pesquisadores argumentaram que uma folha artificial poderia facilmente alimentar uma casa. A tecnologia geralmente envolve o uso de eletricidade para dividir moléculas de CO2. Mas o novo processo que a equipe de Wu está estudando evita o uso de eletricidade, o que, segundo ele, facilita a expansão, pois é necessária menos infraestrutura.

Folha Artificial Transforma CO2 em Metanol

O processo da equipe de Wu usa um pó vermelho barato feito de cobre chamado óxido cuproso, que atua como um catalisador quando misturado com água e CO2. Quando um feixe de luz branca é apontado para a mistura, desencadeia uma reação química que produz oxigênio e converte o CO2 em metanol. Em seguida, a solução é aquecida e o metanol é capturado à medida que evapora.

Wu planeja continuar melhorando a eficiência da tecnologia e em breve começará a comercializar o processo. Ao contrário de startups como a Carbon Engineering, ele planeja trabalhar com o CO2 capturado da indústria e não diretamente do ar. "O CO2 em si é proveniente de gases residuais da indústria siderúrgica, automotiva ou mesmo da indústria de perfuração de petróleo", diz ele. "Podemos usar esse gás residual e convertê-lo em produtos químicos úteis." O combustível alternativo, seja usado em vez de gasolina em carros ou em vez de combustível de aviação feito a partir de petróleo bruto, deve ser competitivo em termos de custo.

Como o processo reduz as emissões, reduz simultaneamente a necessidade de mais produção de petróleo. "Ajuda a combater as mudanças climáticas, reduzindo as emissões de CO2, mas também fornece energia sustentável", diz Wu.

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Manejo Ambientalmente Saudável da Biotecnologia



Manejo Ambientalmente Saudável da Biotecnologia

A Biotecnologia é a integração das novas técnicas decorrentes da moderna biotecnologia às abordagens bem estabelecidas da biotecnologia tradicional. A biotecnologia, um campo emergente com grande concentração de conhecimento, é um conjunto de técnicas que possibilitam a realização, pelo homem, de mudanças específicas no ácido desoxirribonucléico (DNA), ou material genético, em plantas, animais e sistemas microbianos, conducentes a produtos e tecnologias úteis. Em si mesma a biotecnologia não pode resolver todos os problemas fundamentais do meio ambiente e do desenvolvimento, por isso é preciso temperar as expectativas com realismo. Entretanto, sua contribuição promete ser significante para capacitar, por exemplo, o desenvolvimento de melhor atendimento da saúde, maior segurança alimentar por meio de práticas agrícolas sustentáveis, melhor abastecimento de água potável, maior eficiência nos processos de desenvolvimento industrial para transformação de matérias-primas, apoio para métodos sustentáveis de florestamento e reflorestamento, e a desintoxicação dos resíduos perigosos.

A biotecnologia também oferece novas oportunidades de parcerias globais, especialmente entre países ricos em recursos biológicos (que incluem os recursos genéticos) mas carentes da capacitação e dos investimentos necessários para a aplicação desses recursos por meio da biotecnologia, e os países que desenvolveram a capacitação tecnológica necessária para transformar os recursos biológicos de modo que estes sirvam às necessidades do desenvolvimento sustentável(1). A biotecnologia pode contribuir para a conservação de tais recursos por meio, por exemplo, de técnicas ex situ. As áreas de programas estabelecidas a seguir buscam fomentar que princípios internacionalmente acordados sejam aplicados para assegurar o manejo ambientalmente saudável da biotecnologia, conquistar a confiança do público, promover o desenvolvimento de aplicações sustentáveis da biotecnologia e estabelecer mecanismos de capacitação adequados, especialmente nos países em desenvolvimento, por meio das seguintes atividades:

O desenvolvimento e a aplicação acelerados das biotecnologias, especialmente nos países em desenvolvimento, irão requerer um grande esforço para a construção das capacidades institucionais nos planos nacional e regional. Nos países em desenvolvimento, fatores capacitadores como capacidade de treinamento, conhecimentos técnico-científicos, instalações e verbas destinadas a pesquisa e desenvolvimento, capacidade industrial, capital (inclusive capital de risco), proteção dos direitos de propriedade intelectual e capacitação em áreas como pesquisa de marketing, análise da tecnologia, análise socioeconômica e análise das condições de segurança são frequentemente inadequados. Em decorrência, será necessário envidar esforços para construir capacidades nessas e outras áreas e acompanhar tais esforços de volume adequado de apoio financeiro. Portanto é necessário fortalecer as capacidades endógenas dos países em desenvolvimento por meio de novas iniciativas internacionais de apoio à pesquisa para obter uma aceleração do desenvolvimento e da aplicação tanto das biotecnologias novas como das convencionais, com o objetivo de atender às necessidades do desenvolvimento sustentável nos planos local, nacional e regional. Deve fazer parte integrante do mesmo processo a criação de mecanismos nacionais que permitam ao grande público manifestar sua opinião informada sobre pesquisa e aplicação em biotecnologia.

Em muitos países, pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia são empreendidos tanto dentro de codições altamente sofisticadas quanto no plano prático. Serão necessários esforços para assegurar que as condições de infra-estrutura necessárias para as atividades de pesquisa, extensão e tecnologia estejam disponíveis de modo descentralizado. A cooperação global e regional para a realização de pesquisa e desenvolvimento básicos e aplicados também deverá ser reforçada e todos os esforços feitos para garantir que as instalações nacionais e regionais existentes sejam plenamente utilizadas. Tais instituições já existem em alguns países; deve ser possível utilizá-las para fins de treinamento e de projetos conjuntos de pesquisa. Será necessário fortalecer e estabelecer universidades, escolas técnicas e instituições locais de pesquisa para o desenvolvimento de biotecnologias e serviços de extensão para sua aplicação, especialmente nos países em desenvolvimento.

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O VALIOSO SANGUE AZUL DOS CARANGUEJOS-FERRADURA QUE UTILIZADO NA MEDICINA

O valioso sangue azul dos caranguejos-ferradura que salva vidas

Todo ano cerca de 250 mil caranguejos-ferradura, esse bichinho feio que, apesar do nome, tem mais parentesco com aranhas e escorpiões do que com crustáceos, são retirados de seu habitat na costa leste dos EUA e submetidos a um processo de extração de sangue. Além de valioso, ele é muito importante para a nossa saúde.

À primeira vista, a característica mais curiosa do sangue do caranguejo-ferradura (também conhecido como Límulo) é sua cor azul. Ele é assim devido à presença da hemocianina para o transporte de oxigênio nas células sanguíneas, similar à nossa hemoglobina, mas baseada em cobre em vez de ferro.

Embora bonito, o que torna o sangue desses caranguejos valioso são suas propriedades medicinais. Um componente químico encontrado em seus amebócitos consegue detectar e isolar contaminações por bactéria rapidamente (45 minutos, contra dois dias em mamíferos) e, mais importante, mesmo quando ela está presente em quantidades ínfimas – até uma parte em um trilhão.

Esse material é usado para testar equipamentos médicos e vacinas. Se alguma bactéria é encontrada, ele coagula e vira um tipo de gel, indicando a presença dela. Se não, é sinal verde para serem usados em nós. Esse processo simples e quase instantâneo, chamado de teste LAL, evita muitas mortes por infecção. Nos Estados Unidos, a FDA, equivalente à Anvisa, impõe esse teste a toda a indústria farmacêutica e de implantes cirúrgicos.

Infelizmente, a “doação” de sangue pelos caranguejos-ferradura não é tão simples quanto a feita por nós. Tanto que, após detectarem um declínio na população do artrópode na América do Norte, as cinco empresas responsáveis pela coleta de sangue implementaram mudanças: agora, elas colhem no máximo 30% do sangue de cada caranguejo-ferradura e os devolvem à natureza em seguida. Mesmo assim, estima-se que entre 10 e 30% deles morra no processo, e entre as fêmeas sobreviventes, foi constatado que a taxa de natalidade diminui.

Além dos benefícios à saúde humana, existe outro fator que pesa: o valor financeiro do belo sangue azul dos caranguejos-ferradura. Um litro chega a valer US$ 15 mil, o que faz dessa coleta uma indústria multimilionária. Existem pesquisas que buscam criar uma variedade sintética do elemento que nos interessa, mas ela ainda é bastante preliminar e precisa de mais tempo para ser desenvolvida.

A BIOTECNOLOGIA SERÁ BENÉFICA PARA A AGRICULTURA FAMILIAR?

A biotecnologia beneficiará os agricultores pobres?

Muitas das inovações da biotecnologia hoje disponíveis deixam de lado os agricultores pobres, já que estes agricultores não podem pagar pelas sementes protegidas por patentes, propriedade das empresas biotecnológicas. A extensão da tecnologia moderna aos agricultores de escassos recursos foi historicamente limitada por consideráveis obstáculos ambientais. Se estima que 850 milhões de pessoas moram em terras ameaçadas pela desertificação. Outros 500 milhões moram em terrenos muito abruptos para serem cultivados. Devido a estas e outras limitações, ao redor de dois milhões de pessoas sequer foram alcançadas pela ciência agrícola moderna. A maior parte da pobreza rural se desenvolve na faixa latitudinal entre os Trópicos de Câncer e Capricórnio, a região mais vulnerável aos efeitos do aquecimento global. Em tais ambientes, uma grande quantidade de tecnologias baratas e localmente acessíveis estão disponíveis para melhorar e não limitar as opções dos agricultores, uma tendência que é inibida pela biotecnologia controlada pelas multinacionais.

Os pesquisadores da biotecnologia pensam solucionar os problemas associados com a produção de alimentos nestas áreas marginais desenvolvendo culturas GM com características que os pequenos agricultores consideram desejáveis, tais como maior competitividade diante das ervas daninhas e tolerância à seca. Porém, estes novos atributos não são necessariamente uma panacéia. Características como a tolerância à seca são poligênicas (determinadas pela interação de genes múltiplos). Em conseqüência, o desenvolvimento de culturas com tais características é um processo que levaria pelo menos 10 anos. Ademais, quando se trabalha com genes múltiplos para criar uma determinada característica, é inevitável sacrificar outras características como a produtividade. Como resultado, o uso de uma planta tolerante à seca aumentaria os rendimentos de uma cultura apenas em 30 a 40 por cento. Qualquer rendimento adicional deverá originar-se do melhoramento das práticas ambientais (como o manejo da água ou o melhoramento da matéria orgânica do solo para melhorar a retenção de umidade) mais do que da manipulação genética de características específicas (Persley e Lantin, 2000).

Mesmo que a biotecnologia pudesse contribuir para aumentar a colheita uma cultura, isso não significaria que a pobreza viesse a diminuir. Muitos agricultores pobres nos países em desenvolvimento não têm acesso ao dinheiro, ao crédito, à assistência técnica ou ao mercado. A chamada Revolução Verde dos anos 50 e 60 ignorou estes agricultores porque a semeadura dos novos cultivos de alto rendimento e sua manutenção através de pesticidas e fertilizantes era muito cara para os camponeses pobres. Os dados, tanto da Ásia como da América Latina, demonstram que os agricultores ricos com terras mais extensas e melhor manejadas obtiveram melhores resultados com a Revolução Verde, enquanto que os agricultores com menores recursos, no geral, ganharam muito pouco (Lappe et al., 1998). A nova “Revolução Genética” só poderia terminar repetindo os erros de sua precursora.

As sementes geneticamente modificadas estão sob controle corporativo e sob a proteção de patentes e, como conseqüência, são muito caras. Já que a maior parte das Nações em desenvolvimento ainda carecem de infra-estrutura institucional e de créditos com juros baixos, elementos necessários para levar estas sementes aos agricultores pobres, a biotecnologia só exacerbará a marginalização.

Os agricultores pobres não têm espaço no nicho do mercado das empresas privadas, cujo enfoque está dirigido para as inovações biotecnológicas e para os setores agrícola-comerciais dos países industrializados e desenvolvidos, onde tais empresas podem esperar grandes retornos a sua inversão em pesquisa. O setor privado, freqüentemente, ignora culturas importantes como a mandioca, que é um alimento fundamental para 500 milhões de pessoas no mundo. Os poucos agricultores empobrecidos que terão acesso à biotecnologia se tornarão perigosamente dependentes das compras anuais de sementes geneticamente modificadas. Estes agricultores terão que se sujeitar aos onerosos acordos de propriedade intelectual e não poderão semear sementes obtidas de uma colheita das plantas produto da bioengenharia. Tais condições constituem uma afronta para os agricultores tradicionais, os quais por séculos guardaram e compartiram sementes como parte de um legado cultural (Kloppenburg, 1998). Alguns cientistas e formuladores de políticas sugerem que as grandes inversões através de associações público-privadas podem ajudar aos países em desenvolvimento a adquirir a capacidade científica e institucional para delinear a biotecnologia de maneira que se adapte às necessidades e circunstancias dos pequenos agricultores. Mas, uma vez mais, os direitos corporativos de propriedade intelectual sobre os genes e a tecnologia de clonagem de genes arruinariam tais planos. Por exemplo, a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) deve negociar licenças com nove diferentes empresas antes de poder lançar um mamão (papaia) resistente ao vírus, desenvolvido com pesquisadores da Universidade de Cornell (Persley e Lantin, 2000).
Moratória da Soja

Moratória da Soja

Moratória da soja é o nome que recebeu o pacto ambiental havido entre as entidades representativas dos produtores de soja no Brasil, ongs ambientais e, mais tarde, do próprio governo, prevendo a adoção de medidas contra o desmatamento da amazônia, e que inicialmente teve o prazo de duração de dois anos a contar de 24 de julho de 2006.

Iniciativa e participantes
A proposta partiu de duas entidades representativas dos produtores: a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (ANEC) - que controlam juntas 94% da soja produzida no país, obrigando aos filiados de ambos no compromisso de preservação ambiental e desenvolvimento da região, sem comercializar nenhuma soja originária de áreas que sejam originadas de desmatamento, no bioma amazônico.


Para a consecução da proposta, foram convidadas entidades internacionais, como o Greenpeace, o WWF, IPAM e TNC, de modo a comporem, em conjunto aos produtores, o chamado GTS - Grupo de Trabalho da Soja.

No ano de 2008, pelo Ministro Carlos Minc, o Governo Brasileiro subscreveu a moratória, e esta foi prorrogada por mais um ano, até julho de 2009. A participação estatal viria com o cadastramento das unidades produtoras, situadas no bioma afeito ao pacto, e ainda oferecer subsídios técnicos ao GTS. Em contrapartida, o Grupo informa ao governo os dados obtidos até então, com indicativos de áreas problemáticas.

Em 2009 a moratória teve nova prorrogação, por mais um ano, até junho de 2010. Ajustes do monitoramento permitirão áreas inferiores a 100 hectares. Também as visitas a campo não serão tão necessárias, com a análise de imagens de satélite.

Atualmente, a análise de imagens de satélite de média (Landsat/TM) e moderada (Terra/MODIS) resolução espacial e o uso de técnicas de geoprocessamento permitem que sejam monitorados todos os desmatamentos com mais de 25 hectares. Nesta nova metodologia são selecionados para serem sobrevoados somente os polígonos que apresentam características de cultivo agrícola. 

Efeitos e análise
Para o Greenpeace o bioma foi protegido, sem com isso afetar negativamente a produção. Segundo a entidade, a área cultivada com soja na Região Norte somada ao estado de Mato Grosso reduziu em 2008/2009 para 6,32 milhões de hectares, quando em 2005/2006 era de 6,7 milhões. A produção, entretanto, manteve-se estável, na ordem de 19,3 milhões de toneladas.

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BIOTECNOLOGIA, AGRICULTURA E MEIO AMBIENTE.



A biotecnologia está sendo usada para reparar os problemas causados por tecnologias agroquímicas anteriores (resistência aos pesticidas, poluição, degradação do solo, etc.) desenvolvidas pelas mesmas empresas que agora lideram a biorevolução. Os cultivos transgênicos criados para o controle de pragas, seguem de perto os paradigmas de usar apenas um mecanismo de controle (um pesticida) que demonstrou repetidas vezes seu fracasso frente aos insetos, aos patógenos e às pragas (National Research Council, 1996). O tão falado enfoque “uma praga – um gene” será facilmente superado por pragas que continuamente se adaptem a novas situações e desenvolvam mecanismos de desintoxificação (Robinson, 1996).

A agricultura desenvolvida com cultivos transgênicos favorece as monoculturas, que se caracterizam por níveis perigosamente altos de homogeneidade genética, que por sua vez conduzem a uma maior vulnerabilidade dos sistemas agrícolas ante situações de estresse biótico e abiótico (Robinson, 1996). Quando se promove a monocultura, também se inibem os métodos agrícolas ecológicos, como as rotações e os cultivos múltiplos, exacerbando assim, os problemas da agricultura convencional (Altieri, 2000).

Na medida em que as sementes obtidas por engenharia genética substituam as antigas variedades tradicionais e seus parentes silvestres, a erosão genética se acelerará no Terceiro Mundo (Fowler e Mooney, 1990). A busca de uniformidade não só destruirá a diversidade dos recursos genéticos, mas também alterará a complexidade biológica na qual se baseia a sustentabilidade dos sistemas tradicionais de cultivo (Altieri, 1996).

Existem muitas perguntas ecológicas sem resposta sobre o impacto da introdução de plantas e microorganismos transgênicos no meio ambiente e a evidência disponível apóia a posição de que o impacto pode ser substancial. Entre os principais riscos ambientais associados com as plantas produzidas por engenharia genética está a transferência involuntária de “transgenes” às espécies silvestres relacionadas, com efeitos ecológicos imprevisíveis.

Resistência aos herbicidas
Ao criar cultivos resistentes a seus herbicidas, as empresas biotecnológicas podem expandir mercados para seus produtos químicos patenteados (segundo Duke (1996), em 1997, 50 mil agricultores plantaram 3,6 milhões de hectares de soja resistente aos herbicidas, equivalente a 13 por cento dos 28,74 milhões de hectares de soja cultivada nos Estados Unidos) os observadores estabeleceram um valor de US$ 75 milhões aos cultivos resistentes aos herbicidas em 1995, o primeiro ano de comercialização, o que indica que para o ano 2000, o mercado seria de aproximadamente 805 milhões de dólares, o que representa um crescimento de 61 por cento (Carpenter e Gianessi, 1999).

O uso contínuo de herbicidas como o bromoxynil e o glifosato (também conhecido como Roundup da Monsanto) tolerados por culturas resistentes a estes herbicidas, pode acarretar problemas (Goldberg, 1992). Sabe-se muito bem que quando um só herbicida é usado continuamente em um cultivo se incrementa enormemente o risco do desenvolvimento de resistência ao herbicida nas populações de plantas invasoras (Holt et al., 1993). Conhecem-se aproximadamente 216 casos de resistência a uma ou mais famílias de herbicidas (Holt e Le Baron, 1990). Os herbicidas do grupo triasinas registram a maior quantidade de espécies de plantas invasoras resistentes (aproximadamente 60).

Dada a pressão da indústria para aumentar as vendas de herbicidas, a área tratada com herbicidas de amplo espectro se ampliará, intensificando assim, o problema da resistência. Por exemplo, se projetou que a área tratada com glifosato aumentará uns 60,73 milhões de hectares. Ainda que o glifosato seja considerado menos propício para criar resistência em ervas daninhas, o aumento no uso deste herbicida dará como resultado a resistência dos inços ainda que este processo seja mais lento. Isto já foi registrado em populações australianas de pastos como ryegrass, quackgrass, Eleusine indica e Cirsium arvense (Gill, 1995).

Os herbicidas matam mais que as ervas daninhas
As empresas biotecnológicas sustentam que o bromoxynil e o glifosato se degradam rapidamente no solo quando aplicados corretamente, não se acumulam nas águas subterrâneas, não têm efeito sobre outros organismos e não deixam resíduos nos alimentos. Entretanto, existem evidências de que o bromoxynil causa defeitos congênitos em animais, é tóxico para os peixes e pode causar câncer em seres humanos (Goldberg, 1992). Devido ao fato de que o bromoxynil pode ser absorvido através da pele e porque causa defeitos congênitos em roedores, é provável que seja perigoso para os agricultores e trabalhadores do campo. Assim mesmo, há evidências de que o glifosato é tóxico para algumas espécies que habitam o solo, incluindo predadores como aranhas, besouros e coccinelídeos e para outros que se alimentam de detritos como as minhocas, assim como para organismos aquáticos, inclusive peixes (Paoletti e Pimentel, 1996). Sabe-se que este herbicida se acumula em frutas e em tubérculos porque sofre relativamente pouca degradação metabólica nas plantas, razão pela qual surgem perguntas sobre sua inocuidade, especialmente agora quando se usam, anualmente, somente nos Estados Unidos, mais de 16,78 milhões de kg deste herbicida. Além disso, as pesquisas demonstram que o glifosato tende a agir de uma forma parecida a dos antibióticos, alterando de maneira ainda desconhecida a biologia do solo e causando efeitos tais como: reduzir a habilidade da soja e do trevo para fixar nitrogênio; tornar as plantas de feijão mais vulneráveis a enfermidades; reduzir o crescimento das micorrizas que vivem no solo, fungos chaves para ajudar as plantas a extrair o fósforo do solo.

Criação de “super-ervas daninhas”
Ainda que haja certa preocupação pelo fato de que os cultivos transgênicos por si próprios possam converter-se em ervas daninhas, o principal risco ecológico é que a implantação em grande escala dos cultivos transgênicos promova a transferência de transgenes destes cultivos para outras plantas, as quais poderiam transformar-se em ervas daninhas (Darmency, 1994). Os transgenes que conferem vantagens biológicas significativas podem transformar plantas silvestres em novas ou piores ervas daninhas (Rissler e Mello, 1996). O processo biológico que nos preocupa é a introgressão-hibridação entre espécies de plantas diferentes mas aparentadas. A evidência destaca que tais intercâmbios genéticos já se realizam entre plantas silvestres, ervas daninhas e espécies cultivadas. A incidência de Sorghum bicolor, uma erva daninha aparentada com o sorgo e o fluxo genético entre o milho e o teosinto demonstram o potencial de que os parentes das culturas possam converter-se em ervas daninhas perigosas. Isto é preocupante dada a quantidade de culturas que crescem nas proximidades de seus parentes silvestres sexualmente compatíveis, nos Estados Unidos (Lutman, 1999). Deve-se ter extremo cuidado nos sistemas agrícolas que se caracterizam pela polinização cruzada como a aveia, a cevada, os girassóis e seus parentes silvestres, e entre o raps e outras crucíferas relacionadas (Snow e Moran, 1997).

Na Europa existe uma grande preocupação sobre a possível transferência de pólen de genes tolerantes aos herbicidas das sementes oleaginosas de Brassica para as espécies Brassica nigra e Sinapsis arvensis (Casper e Landsmann, 1992). Alguns cultivos crescem perto de plantas silvestres que não são seus parentes próximos, mas que podem ter certo grau de compatibilidade cruzada, como os cruzamentos de Raphanus raphanistrum x R. sativus (rabanetes) e o sorgo alepo x o milho-sorgo (Radosevich et al., 1996). Repercussões em cascatas destas transferências podem, em última instância, significar mudanças na estrutura das comunidades vegetais. Os intercâmbios genéticos constituem uma grande ameaça aos centros de diversidade, porque nos sistemas agrícolas biodiversos é muito alta a probabilidade de que os cultivos transgênicos encontrem parentes silvestres sexualmente compatíveis.

A transferência de genes dos cultivos transgênicos a cultivos orgânicos representa um problema específico para os agricultores orgânicos: a certificação orgânica está baseada na garantia de que os produtos orgânicos não tenham transgenes inseridos. Alguns cultivos que podem cruzar-se com outras espécies, como o milho ou raps poderão ser afetados em maior grau, mas todos os agricultores que desenvolvem agricultura orgânica correm o risco de contaminação genética. Não existem normas que obriguem a um mínimo de separação entre os campos de cultivos transgênicos e de cultivos orgânicos (Royal Society, 1998).

Concluindo, o fato de que a hibridação e a introgressão interespecíficas seja algo comum em espécies como o girassol, o milho, o sorgo, o raps, o arroz, o trigo e a batata, oferece uma base para antecipar fluxos genéticos entre os cultivos transgênicos e seus parentes silvestres, que podem dar lugar a novos inços resistentes aos herbicidas (Lutman, 1999). Existe consenso entre os cientistas de que os cultivos transgênicos, em algum momento, permitirão os escapes dos transgenes para as populações de seus parentes silvestres. O desacordo entre eles está em quão sério será o impacto de tais transferências (Snow e Moran, 1997).

Riscos ambientais dos cultivos resistentes a insetos (Cultivos Bt)

Resistência
Segundo a indústria biotecnológica, a promessa é de que os cultivos transgênicos implantados com genes Bt substituiriam os inseticidas sintéticos que se usam para controlar insetos-praga. Mas isto não está muito claro uma vez que a maior parte dos cultivos são atacados por diversas pragas e as pragas que não pertencem à ordem Lepidóptera terão que ser combatidas com inseticidas porque não são susceptíveis à toxina Bt expressada no cultivo (Gould, 1994). Um recente relatório (USDA, 1999) que analisa o uso de pesticidas na safra agrícola de 1997 nos Estados Unidos, em 12 combinações de regiões e cultivos, demonstrou que em 7 localidades não houve diferença estatística no uso de pesticidas entre cultivos com Bt e cultivos convencionais sem Bt. No delta do Mississipi, foi usada uma quantidade significativamente maior de pesticidas em algodão Bt do que nas lavouras de algodão sem Bt.

Por outro lado, sabe-se que espécies de lepidópteros desenvolveram resistência à toxina Bt tanto em experiências de campo como em laboratório, o que sugere a possibilidade de aparição de importantes problemas de resistência nos cultivos Bt, através dos quais a contínua expressão da toxina, cria uma forte pressão de seleção (Tabashnik, 1994). Nenhum entomólogo sério pode questionar se a resistência se desenvolverá ou não. A pergunta é: com que rapidez isto acontecerá? Os cientistas já detectaram o desenvolvimento de “resistência de comportamento” em alguns insetos que aproveitam a expressão irregular da potência da toxina nas folhas do cultivo, atacando somente as partes com baixa concentração de toxina. Além disso, uma vez que as toxinas implantadas por meios genéticos com freqüência diminuem nos tecidos de folhas e talos conforme o cultivo amadurece, uma baixa dose somente pode matar ou debilitar completamente as larvas suscetíveis (homozigotas). Em conseqüência, pode acontecer uma adaptação muito mais rápida à toxina Bt se a concentração permanecer sempre alta. A observação das plantas de milho transgênico a finais de outubro indicaram que a maioria das brocas européias do milho que sobreviveram, haviam entrado em dormência, preparando-se para emergir como adultos na seguinte primavera (Onstad e Gould, 1998).

Para retardar o inevitável desenvolvimento de resistência dos insetos aos cultivos Bt, os bioengenheiros estão preparando planos de manejo de resistência que consistem em mosaicos de parcelas transgênicas e não transgênicas (denominadas refúgios) para retardar a evolução da resistência, proporcionando populações de insetos suscetíveis que possam ser cruzados com os insetos resistentes. Ainda que estes refúgios devam ter um tamanho de pelo menos 30% da área cultivada, o novo plano da Monsanto recomenda refúgios de apenas 20% inclusive quando sejam utilizados inseticidas. Adicionalmente, o plano não oferece detalhes sobre se os cultivos serão plantados junto com os cultivos transgênicos ou a certa distancia, aonde, segundo os estudos, são menos efetivos (Mallet e Porter, 1992). Além disso, devido a que os refúgios requerem o difícil objetivo da coordenação regional com os agricultores, não é realista pensar que os pequenos e médios agricultores dediquem 30 a 40 por cento de sua área de cultivo para refúgios, especialmente se os cultivos nestas áreas vão sofrer fortes danos causados por pragas.

Os agricultores que enfrentam os maiores riscos de desenvolvimento de resistência dos insetos ao Bt são os agricultores orgânicos da vizinhança, os quais plantam milho e soja sem agroquímicos. Uma vez que a resistência aparece em uma população de insetos, os agricultores orgânicos não poderão usar Bacillus thuringiensis na forma de inseticida microbiano para o controle de pragas de lepidópteros que se transladam dos campos transgênicos vizinhos. Além disso, a contaminação genética dos cultivos orgânicos, resultado do fluxo de genes (pólen) dos cultivos transgênicos pode comprometer a certificação dos cultivos orgânicos e os agricultores podem perder seus mercados. Quem compensará os agricultores orgânicos por tais perdas?

Sabemos pela história da agricultura, que as enfermidades das plantas, as pragas de insetos e as ervas daninhas se tornam mais severas com o desenvolvimento de monoculturas e que os cultivos geneticamente modificados de manejo intensivo logo perdem a diversidade genética (Altieri, 1994; Robinson, 1996). Baseados nestes fatos, não há razão para acreditar que a resistência aos cultivos transgênicos não evolucionará entre os insetos e patógenos como ocorreu com os pesticidas. Não importa que estratégia de manejo da resistência se use, as pragas se adaptarão e superarão as limitações agronômicas (Green,1990). Os estudos de resistência aos pesticidas demonstram que pode aparecer uma seleção não intencional e resultar em problemas de pragas maiores que os que existiam do desenvolvimento de novos inseticidas. As doenças e pragas sempre foram ampliadas pelas mudanças rumo a uma agricultura geneticamente homogênea, precisamente o tipo de sistema que a biotecnologia promove (Robinson, 1996).

Efeitos sobre espécies benéficas
Mantendo as populações de pragas a níveis muito baixos, os cultivos Bt poderiam potencialmente deixar morrer de fome os inimigos naturais, porque os predadores e vespas parasitas que se alimentam das pragas necessitam uma pequena quantidade de presas para sobreviver no agroecossistema. Entre os inimigos naturais que vivem exclusivamente dos insetos que os cultivos transgênicos estão desenhados para destruir (Lepdóptera), os parasitóides de ovos e de larvas seriam os mais afetados porque são totalmente dependentes de hospedeiros vivos para o seu desenvolvimento e sobrevivência. Alguns predadores poderiam teoricamente prosperar em organismos mortos (Schuler et al., 1999).

Os inimigos naturais poderiam se ver afetados diretamente por efeito dos níveis intertróficos da toxina. A possibilidade de que as toxinas Bt se movimentem através da cadeia alimentar dos insetos apresenta serias conseqüências para o biocontrole natural em campos de agricultores. Evidencias recentes mostram que a toxina Bt pode afetar os insetos benéficos, predadores que se alimentam das pragas de insetos presentes em cultivos Bt (Hilbeck,1998). Estudos realizados na Suíça mostram que a media da mortalidade total de larvas do Crisopas predadoras (Chrysopidae) criado em presas alimentadas com Bt foi de 62 por cento, comparada com 37 por cento quando se alimentavam de presas livres de Bt. Estas espécies de Chrysopidae alimentadas com Bt também mostraram um tempo mais prolongado de desenvolvimento ao longo do seu estado de vida imatura (Hilbeck, 1998).

Estas descobertas são preocupantes, especialmente para os pequenos agricultores que confiam no rico complexo de predadores e parasitas, associados com seus sistemas de cultivo misto, para o controle das pragas de insetos (Altieri, 1994). Os efeitos em nível intertrófico da toxina Bt trazem a baila serias possibilidades de causar rupturas no controle natural de pragas. Os predadores polífagos que se movimentam dentro e entre cultivos mistos encontrarão presas que contém Bt durante toda a temporada (Hilbeck, 1999). A ruptura dos mecanismos de biocontrole pode dar como resultado um aumento das perdas do cultivo devido a pragas ou provocar um uso mais intensivo de pesticidas, com conseqüências para a saúde e riscos para o meio ambiente.

Também se sabe que o pólen transportado pelo vento desde os cultivos Bt que se deposita na vegetação natural que rodeia os campos transgênicos pode matar outras espécies de insetos. Um estudo da Universidade de Cornell (Losey et al., 1999) demonstrou que o pólen de milho que contém a toxina Bt pode ser transportado a vários metros pelo vento e depositar-se em folhagens da planta Asclepias com efeitos potencialmente danosos sobre as populações da mariposa monarca. Estas descobertas abrem toda uma nova dimensão sobre o tema dos impactos inesperados dos cultivos transgênicos sobre outros organismos que desempenham papéis-chave, mas muitas vezes desconhecidos, no ecossistema.

Porém, os efeitos ambientais não se limitem aos cultivos e aos insetos. As toxinas Bt podem ser incorporadas no solo junto com resíduos de folhas no momento em que os agricultores aram a terra com os restos dos cultivos transgênicos, logo após a colheita. As toxinas podem persistir por dois ou três meses, porque resistem à degradação quando unidas à argila e aos ácidos húmicos presentes no solo, de forma que mantém sua atividade tóxica (Palm et al., 1996). Tais toxinas Bt ativas que se acumulam no solo e na água, junto com os resíduos de folhas transgênicas, podem causar impactos negativos sobre o solo e sobre os invertebrados aquáticos, assim como sobre a reciclagem de nutrientes (Donnegan e Seidler, 1999).

O fato do Bt reter suas propriedades inseticidas e se encontrar protegido da degradação microbiana ao se unir as partículas do solo, persistindo em vários tipos de solos pelo menos 234 dias, é uma seria preocupação para os agricultores pobres, os quais não podem comprar os caros fertilizantes químicos. Ao contrário, estes agricultores usam os resíduos locais, a matéria orgânica e os microorganismos do solo para melhorar a fertilidade (espécies-chave, invertebrados, fungos ou bactérias) que podem se ver afetados negativamente pela toxina ligada ao solo (Saxena et al., 1999).

Em defesa da adoção do principio da precaução
Os efeitos ecológicos dos cultivos obtidos via engenharia genética não se limitam à resistência das pragas ou à criação de novas ervas daninhas ou raças de vírus. Como discutimos aqui, os cultivos transgênicos podem produzir toxinas ambientais que se movimentam através da cadeia alimentar e que podem chegar até o solo e a água afetando assim aos invertebrados e, provavelmente, alterando os processos ecológicos como o ciclo dos nutrientes. E mais, a homogeneização em grande escala das áreas com cultivos transgênicos exacerbará a vulnerabilidade ecológica associada com a agricultura baseada em monocultivos (Altieri, 2000). Não é aconselhável a expansão desta tecnologia aos países em desenvolvimento. Há um potencial na diversidade agrícola de muitos destes países que não deveria ser inibido ou reduzido pelo monocultivo extensivo, especialmente se isto pode ocasionar sérios problemas sociais e ambientais (Thrupp, 1998).

Apesar destas considerações, os cultivos transgênicos ingressaram rapidamente nos mercados internacionais e se localizaram de forma massiva nas lavouras dos Estados Unidos, Canadá, Argentina, China e outros países, alcançando mais de 40 milhões de hectares. É lamentável que somente agora, depois de 4 anos de comercialização massiva de produtos transgênicos, o ex-secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Dan Glickman, tenha solicitado estudos para avaliar os efeitos a longo prazo, tanto ecológicos como sobre a saúde, que possam causar os transgênicos. Esta iniciativa é tardia, já que a liberação ecológica de genes não é recuperável e seus efeitos são irreversíveis.

O rápido lançamento dos cultivos transgênicos e a conseqüente desorganização financeira (os preços das ações das empresas de biotecnologia estão caindo) é uma reminiscência perturbadora dos prévios incidentes com a energia nuclear e os pesticidas clorados com o DDT. Uma combinação de oposição pública e obrigações financeiras forçou a paralisação destas tecnologias logo que seus efeitos sobre o meio ambiente e a saúde humana demonstraram que eram muito mais complexos, difusos e persistentes que as promessas que acompanharam a sua rápida comercialização.

No contexto das negociações durante a Convenção de Diversidade Biológica (CBD, em inglês) no ano passado, 130 países demonstraram sabedoria ao adotar o principio de precaução, assinando um acordo global que determina o controle do comércio dos organismos geneticamente modificados (OGM). Este princípio que é a base para um acordo internacional sobre biosegurança (International Biosafety Protocol) sustenta que quando se suspeita que uma tecnologia nova pode causar dano, a incerteza científica sobre o alcance e a severidade da tecnologia não deve obstaculizar a tomada de precauções. Isto dá o direito aos países a se oporem à importação de produtos transgênicos sobre os quais há suspeitas mínimas de que representem um perigo para a saúde ou para o meio ambiente. Infelizmente, um bloco de países exportadores de grãos, encabeçados pelos EUA, se opõem a este acordo internacional argumentando que os produtos agrícolas devem eximir-se de tais regulamentações por atentar contra o livre comércio. O principio da precaução estabelece que os produtores destas tecnologias é que deverão apresentar evidências de que elas são inócuas e não mais como dizem as empresas, que caberia aos seus críticos o ônus de provar os possíveis danos das mesmas. Existe uma clara necessidade de provas independentes e monitoramento para assegurar que os dados auto-gerados, apresentados às agências reguladoras governamentais, pelas próprias empresas, não são parciais ou inclinados aos interesses da indústria. Além disso, se deveria propiciar um monitoramento mundial contra os OGM até que as interrogações lançadas, tanto por cientistas de renome –que estão fazendo investigações sérias sobre o impacto ecológico e sobre a saúde dos cultivos transgênicos– como pelo público em geral, sejam esclarecidas por grupos de cientistas independentes.

Muitos grupos ambientalistas e de consumidores que defendem a necessidade de uma agricultura mais sustentável demandam o apoio contínuo da pesquisa agrícola com base ecológica, já que existem soluções agroecológicas para todos os problemas biológicos que a tecnologia quer resolver. O problema é que a investigação nas instituições públicas tem como reflexo, cada vez mais, os interesse de grupos privados, deixando de lado a parte boa da pesquisa pública como o controle biológico, os sistemas orgânicos e as técnicas agroecológicas em geral (Busch, 1990). A sociedade civil deve exigir mais pesquisas públicas sobre alternativas à biotecnologia, a serem desenvolvidas por universidades e outras organizações públicas. Há também uma urgente necessidade de resistir ao sistema de patentes e aos direitos de propriedade intelectual presentes nas normas da OMC – Organização Mundial do Comércio, que não só permitem às organizações multinacionais o direito de se apropriar e patentear recursos genéticos como também acentuam a velocidade segundo a qual as forças do mercado estimulam o monocultivo com variedades transgênicas geneticamente uniformes.

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A BIOTECNOLOGIA, A FOME NO MUNDO E O BEM-ESTAR DOS AGRICULTORES

Populações famintas no meio da abundância
As empresas de biotecnologia defendem que os organismos geneticamente modificados (GMO’s em inglês) –especificamente as sementes geneticamente modificadas– são descobertas científicas necessárias para alimentar o mundo e reduzir a pobreza nos países em desenvolvimento. A maioria das organizações internacionais encarregadas da política e da pesquisa para o melhoramento da segurança alimentar no mundo em desenvolvimento fazem eco a este ponto de vista. Este argumento tem como base duas suposições críticas: que a fome se deve a uma brecha entre a produção de alimentos e a densidade da população humana ou a taxa de crescimento; e que a engenharia genética é a única ou a melhor forma de incrementar a produção agrícola e, portanto, cobrir as futuras necessidades de alimento.

Como ponto inicial para esclarecer estas falsas concepções, é necessário entender que não há uma relação direta entre a presença da fome em um determinado país e a sua população. Para cada nação faminta e densamente povoada, como Bangladesh ou Haiti, existe um país escassamente povoado e faminto como o Brasil ou a Indonésia. O mundo, hoje, produz mais alimentos por habitante do que nunca. Há suficiente alimento disponível para prover 1,95 kg por pessoa por dia: 1,13 kg de grãos, feijões e nozes; ao redor de 0,45 kg de carne, leite e ovos e outra de frutas e verduras (Lappe et al., 1998).

Em 1999, se produziu suficiente quantidade de grãos no mundo para alimentar uma população de oito bilhões de pessoas (seis bilhões habitavam o planeta em 2000), se estes grãos fossem distribuídos eqüitativamente ou não fossem dados como alimento aos animais. Sete de cada dez kg de grãos são usados para alimentar animais nos Estados Unidos. Países como Brasil, Paraguai, Tailândia e Indonésia dedicam milhares de hectares de terras agrícolas para a produção de soja e mandioca para exportar para a Europa como alimento para o gado. Se fosse canalizado um terço dos grãos produzidos no mundo para a população faminta e necessitada, a fome acabaria instantaneamente (Lappe et al., 1998).

A fome também foi criada pela globalização, especialmente quando os países em desenvolvimento adotam as políticas de livre comércio recomendadas pelas agências internacionais (reduzindo as taxas e permitindo o fluxo dos produtos dos países industrializados). A experiência do Haiti, um dos países mais pobres do mundo, é ilustrativa. Em 1986, o Haiti importou só 7.000 toneladas de arroz porque a maior parte da necessidade para o consumo se produzia na ilha. Quando abriu sua economia ao mundo, os Estados Unidos, onde a indústria do arroz é subsidiada, inundou o Haiti de arroz barato. Em 1996, o Haiti importou 196.000 toneladas de arroz ao custo de US$ 100 milhões anuais. A produção de arroz haitiano se tornou insignificante quando se concretizou a dependência do arroz vindo do exterior. E a fome cresceu (Aristide, 2000).

As causas reais da fome são a pobreza, a desigualdade e a falta de acesso aos alimentos e à terra. Demasiada gente é muito pobre (ao redor de dois bilhões sobrevivem com menos de um dólar por dia) para comprar os alimentos disponíveis (freqüentemente com uma má distribuição) ou carecem de terras e dos recursos para cultivá-la (Lappe et al., 1998). Porque a verdadeira raiz da fome é a desigualdade, qualquer método desenhado para reforçar a produção de alimentos, mas que agrave esta desigualdade, fracassará em reduzir a fome. Ao contrário, apenas as tecnologias que tenham efeitos positivos na distribuição da riqueza, do ingresso e dos ativos, que estejam a favor dos pobres, poderão, na realidade, reduzir a fome. Afortunadamente tais tecnologias existem e podem agrupar-se sob a disciplina da Agroecologia, cujo potencial é amplamente demonstrado e analisado mais profundamente ao longo deste livro (Altieri et al., 1998; Uphoff e Altieri, 1999).

Se fosse atacada a desigualdade por meio de reformas agrárias poderia ser mantida a promessa de um aumento de produtividade que superaria o potencial da biotecnologia agrícola. Assim, enquanto os defensores da indústria fazem uma promessa de 15, 20 e até 30 por cento de aumento dos rendimentos através da biotecnologia, os pequenos agricultores, em nível mundial, produzem hoje, de 200 a 1.000 por cento a mais por unidade de área que as grandes propriedades (Rosset, 1999). Isto prova que uma estratégia clara para aproveitar a vantagem da maior produtividade das pequenas propriedades é impulsionar reformas agrárias que reduzam as grandes propriedades ineficientes e improdutivas a um tamanho pequeno ótimo, e assim proporcionar as bases para o crescimento da produção em propriedades de pequenos agricultores, aumentos diante dos quais ficaria empalidecida a publicitada promessa produtiva da biotecnologia.

É importante entender que a maior parte das inovações na biotecnologia agrícola se orienta mais para o lucro das empresas do que para as necessidades da população. O verdadeiro motor da indústria da engenharia genética não é fazer a agricultura mais produtiva mas sim gerar maiores ingressos (Bush et al., 1990). Isto se ilustra revisando as principais tecnologias do mercado de hoje: (1) culturas resistentes aos herbicidas, tais como a Soja Roundup Ready da Monsanto, sementes que são tolerantes ao herbicida Roundup da Monsanto, e (2) os cultivos Bt (Bacillus thuringiensis) que foram desenvolvidos pela engenharia genética para produzir seu próprio inseticida. No primeiro caso, a meta é ganhar mais participação de mercado dos herbicidas para um produto exclusivo e, no segundo caso, se deseja aumentar as vendas de sementes ainda que danificando a utilidade de um produto chave para o manejo de pragas (o inseticida microbiano à base de Bt) no qual confiam muitos agricultores, incluindo a maioria de agricultores de cultivos orgânicos, como uma poderosa alternativa aos inseticidas químicos.

Estas tecnologias respondem à necessidade das empresas de biotecnologia de intensificar a dependência dos agricultores às sementes protegidas pela chamada “propriedade intelectual” que entra diretamente em conflito com os antigos direitos dos agricultores de reproduzir, compartir ou armazenar suas próprias sementes (Fowler e Mooney, 1990). Nesta lógica, sempre que podem, as corporações obrigam os agricultores a comprar uma marca de insumo de sua empresa e os proíbem de guardar ou de vender as sementes. Se os agricultores dos Estados Unidos adotam a soja transgênica, devem assinar um acordo com a Monsanto. Se plantam soja transgênica no ano seguinte, usando semente própria, a multa é de uns US$ 7.411,06 por hectare, dependendo da área. Esta multa pode custar ao agricultor, a sua propriedade, a sua casa. Controlando o germoplasma desde a produção das sementes até a sua venda, e obrigando os agricultores a pagar preços elevados por pacotes de sementes-químicos, as empresas estão decididas a extrair o máximo benefício do seu investimento (Krimsky e Wrubel, 1996).

O caso do arroz dourado
Os cientistas que apóiam a biotecnologia e estão em desacordo com a afirmação de que a maior parte da pesquisa em biotecnologia está baseada no lucro mais do que na necessidade, usam como parte da sua retórica humanitária, o recentemente desenvolvido, mas ainda não comercializado, arroz dourado. Este arroz experimental é rico em beta caroteno, o precursor da vitamina A, que é um elemento nutritivo importante para milhões de crianças, especialmente na Ásia, que sofrem de deficiência de Vitamina A, o que pode conduzir à cegueira.

Quem criou o arroz dourado diz que esta nova cultura foi desenvolvida com fundos públicos e que uma vez que se demonstre sua viabilidade em campos de cultivo, será distribuído gratuitamente entre os pobres. A idéia de que um arroz geneticamente alterado é a forma apropriada de tratar a condição de dois milhões de crianças em risco de cegueira –induzida pela deficiência de Vitamina A– revela uma tremenda ingenuidade sobre as causas reais da mal-nutrição por falta de vitaminas e micronutrientes. Se nos remetemos aos padrões de desenvolvimento e nutrição humanos, rapidamente nos damos conta de que a deficiência de vitamina A não está caracterizada como um problema, se não como um sintoma, um sinal de alerta. Nos alerta sobre maiores deficiências associadas tanto com a pobreza como com a mudança ocorridas na agricultura, que passou de sistemas agrícolas diversificados para as monoculturas promovidas pela Revolução Verde.

As pessoas não apresentam deficiência de vitamina A porque o arroz contenha muito pouca vitamina A, ou beta caroteno, mas porque sua dieta se reduz somente ao arroz e a quase nada mais, e sofrem de outras doenças nutricionais que não podem ser tratadas com beta caroteno, mas que poderiam ser tratadas, junto com a deficiência de vitamina A, com uma dieta mais variada. O arroz dourado, portanto, deve ser considerado como uma tentativa unidirecional de reparar um problema criado pela Revolução Verde: o problema da diminuição da variedade de cultivos e da diversificação da dieta.

Esta solução através da “varinha mágica”, que coloca beta caroteno no arroz –com um potencial dano ecológico e à saúde–, ao mesmo tempo em que deixa intacta a pobreza, as dietas pobres e a monocultura extensiva, não pode trazer nenhuma contribuição duradoura ao bem-estar das populações. Usando a frase de Vandana Shiva, “um enfoque desta natureza revela cegueira ante as soluções simples disponíveis para combater a cegueira induzida pela deficiência de vitamina A, que inclui muitas plantas, que quando são introduzidas (ou reintroduzidas) na dieta proporcionam o beta caroteno e outras vitaminas e micronutrientes”.

Ainda que os vegetais silvestres tenham sido considerados periféricos nos lares camponeses, sua extração como se pratica atualmente em muitas comunidades rurais constitui um aditivo significativo para a nutrição e subsistência das famílias camponesas. Dentro e fora da periferia das lavouras de arroz, há muitos vegetais de folha verde, silvestres e cultivados, ricos em vitaminas e nutrientes, muitos dos quais são eliminados quando os agricultores adotam a monocultura e os herbicidas a ela associados (Greenland, 1997).

Os biotecnólogos em arroz não entendem as profundas tradições culturais populares que determinam as preferências por alimentos entre a população asiática, especialmente o significado social e inclusive religioso do arroz branco. É altamente improvável que o arroz dourado substitua o arroz branco que por milênios jogou variados papéis em aspectos nutricionais, culinários e cerimoniais naquela cultura. Não cabe dúvida de que o arroz dourado sacudirá as tradições associadas com o arroz branco da mesma forma que ocorreria com batatas fritas verdes ou azuis na preferência do povo dos Estados Unidos.

Mas inclusive se o arroz dourado viesse a ingressar nos pratos dos pobres da Ásia, não haveria uma garantia de que isso beneficiaria as pessoas pobres que não comem alimentos ricos em gorduras ou azeites. O beta caroteno é solúvel em gorduras e sua ingestão pelo intestino depende da graxa ou azeite utilizados na dieta. Ainda mais, as pessoas que sofrem de desnutrição protéica e carecem de dietas ricas em graxas não podem armazenar bem a vitamina A no fígado nem podem transporta-la aos diferentes tecidos corporais aonde é requerida. Devido à baixa concentração de beta caroteno no arroz “milagroso”, as pessoas teriam que comer mais de um kg de arroz diário para obter a ração diária recomendada de vitamina A.

A biotecnologia aumenta os rendimentos?
Um importante argumento proposto pelos biotecnólogos é que as plantas transgênicas aumentarão significativamente o rendimento dos cultivos. Estas expectativas foram examinadas no relatório do Serviço de Pesquisa Econômica (Economic Research Service, ERS, 1999), do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a partir de dados coletados em 1997 e 1998, para 112 e 18 combinações região/cultura dos Estados Unidos. As culturas observadas foram o milho Bt e o algodão, assim como o milho, algodão e soja tolerantes a herbicidas (HT), e sua contraparte de culturas convencionais.

Em 1997, os rendimentos não mostraram diferenças significativas entre as culturas com e sem engenharia genética em 7 das 12 combinações cultura/região. Quatro das 12 regiões mostraram incrementos significativos (13 a 21 por cento) no rendimento das plantas com engenharia genética (soja tolerante em três regiões e algodão Bt em uma região). O algodão tolerante a herbicidas em uma região mostrou uma redução significativa no rendimento (12 por cento), quando comparado com sua contraparte convencional.

Em 1998, os rendimentos não tiveram diferenças significativas entre culturas com e sem engenharia genética em 12 de 18 combinações cultura/região. Cinco combinações (milho Bt em duas regiões, milho HT em uma região, algodão Bt em duas regiões) mostraram aumentos significativos no rendimento (5 a 30 por cento) das plantas com engenharia genética, mas apenas sob alta pressão da broca européia do milho, cujo ataque é esporádico. De fato, muitos entomologistas pensam que a maioria dos agricultores não se beneficiarão das tecnologias Bt em níveis médios de infestação da broca, dado que níveis populacionais negativos desta praga se dão esporadicamente, uma vez cada 4 a 8 anos. O algodão tolerante a herbicidas (tolerante ao glifosato ou Roundup) foi a única cultura com engenharia genética que não mostrou aumentos significativos no rendimento em nenhuma das regiões onde foi testado.

Em 1999, pesquisadores do Instituto de Agricultura e Recursos Naturais da Universidade de Nebraska plantaram cinco diferentes variedades de soja da Monsanto, junto com seus parentes convencionais mais próximos e as variedades tradicionais de mais alto rendimento, em quatro localidades do Estado, usando áreas sem irrigação e campos irrigados. Em média, os pesquisadores encontraram que as variedades tratadas pela engenharia genética –ainda que mais caras– produziam seis por cento menos que seus parentes próximos sem engenharia genética e 11 por cento menos que as culturas convencionais de maior rendimento. Do mesmo modo, informes da Argentina mostram os mesmos resultados de ausência de um melhor rendimento da soja HT, a qual universalmente parece mostrar problemas de rendimento.

As perdas no rendimento se ampliam em culturas como o milho Bt onde se requer que os agricultores deixem 20 por cento da sua terra como refúgios de milho não transgênico. Se espera que parcelas alternadas de milho transgênico e não transgênico retardem a evolução da resistência às pragas ao prover refúgios aos insetos suscetíveis a fim de que possam ser cruzados com insetos resistentes. As culturas no refúgio possivelmente sofram forte dano e, deste modo, os agricultores terão perdas no rendimento. Um refúgio totalmente livre de pesticida deve ter de 20 a 30 por cento do tamanho de uma parcela submetida à engenharia genética, mas se são usados inseticidas, então o refúgio deve ter ao redor de 40 por cento do tamanho da parcela biotecnológica porque pulverizar com inseticidas incrementa o desenvolvimento da resistência ao Bt (Mellon e Rissler, 1999).

Se, ao contrário, se dedicasse 30 por cento das áreas cultiváveis para plantar soja sob um desenho de cultivos em franjas com milho (como muitos agricultores alternativos fazem no meio oeste), se obteriam rendimentos de mais de 10% do que com as monoculturas comparativas de milho e soja, ao mesmo tempo que se introduziriam potenciais para a rotação interna no campo onde os cordões em contorno minimizam a erosão nas ladeiras (Ghaffarzadeh et al., 1999) Ainda mais, a broca européia do milho seria minimizada porque as populações desta praga tendem a ser menores nos sistemas de cultivos mistos e rotativos (Andow, 1991).

No caso do algodão, não há uma necessidade demonstrada de introduzir a toxina Bt na cultura já que a maior parte dos Lepidópteros (borboletas e mariposas) que atacam esta cultura são pragas secundárias induzidas pelos pesticidas. A melhor forma de enfrenta-las não é aplicando inseticidas, mas usando o controle biológico ou técnicas culturais como a rotação ou os cultivos alternados com alfafa. No sudeste, a praga chave é o gorgulho (boll weevil), imune à toxina Bt.


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BIOTECNOLOGIA: MITOS, RISCOS AMBIENTAIS E ALTERNATIVAS


Biotecnologia agrícola: mitos, riscos ambientais e alternativas
Até mais ou menos quatro décadas atrás, os rendimentos agrícolas nos Estados Unidos baseavam-se nos recursos internos, na reciclagem da matéria orgânica, nos mecanismos de controle biológico e nos padrões de chuva. Os rendimentos agrícolas eram modestos, mas estáveis. A produção estava salvaguardada porque no campo se cultivava mais de um produto ou variedade no tempo e no espaço, como um seguro contra a aparição de pragas ou a severidade climática. O nitrogênio do solo era reincorporado pela rotação das principais culturas com as leguminosas. As rotações de culturas destruíam insetos, inços e doenças, graças à ruptura efetiva dos ciclos de vida destas pragas. Um típico agricultor de milho semeava milho em rotação com outras diversas culturas, como a soja, e a produção de outros grãos era intrínseca para manter o gado na propriedade. A maior parte do trabalho era feita pela família, que era a dona da propriedade, com ajuda externa ocasional. Não se compravam equipamentos, nem se usavam insumos externos (Altieri, 1994; Audirac, 1997).

No mundo em desenvolvimento, os pequenos agricultores impulsionaram sistemas agrícolas ainda mais complexos e biodiversos, guiados pelo conhecimento indígena (camponês) que superou a prova do tempo (Thrupp, 1998). Neste tipo de sistemas, a conexão entre agricultura e ecologia era bastante forte e raramente se evidenciavam sinais de degradação ambiental.

Mas, conforme a modernização agrícola foi avançando, a conexão ecologia – sistema agrícola foi sendo destruída, já que os princípios ecológicos foram ignorados ou omitidos. O lucro, e não a necessidade do povo ou a preocupação pelo ambiente, determinou a produção agrícola. Os interesses dos agronegócios e as políticas dominantes favoreceram as grandes propriedades, a produção especializada, a monocultura e a mecanização.

Hoje, a monocultura cresceu de maneira drástica em todo o mundo, principalmente através da expansão geográfica anual das lavouras dedicadas a cultivos individuais. A monocultura implicou na simplificação da biodiversidade, dando, como resultado final, um ecossistema artificial que requer constante intervenção humana através do uso de insumos agroquímicos, os quais além de melhorar os rendimentos apenas temporariamente, dão como resultado elevados custos ambientais e sociais não desejados. Conscientes de tais impactos, muitos cientistas agrícolas chegaram ao consenso geral de que a agricultura moderna se enfrenta a uma severa crise ecológica (Conway e Pretty,1991).

A perda anual de rendimentos devido a pragas em muitos cultivos (que, na maior parte dos casos, chega a 30 por cento), apesar do aumento substancial no uso de pesticidas (cerca de 500 milhões de kg de ingrediente ativo, em todo o mundo), é um sintoma da crise ambiental que afeta a agricultura. As plantas cultivadas que crescem como monoculturas geneticamente homogêneas não possuem os mecanismos ecológicos de defesa necessários para tolerar o impacto das populações epidêmicas de pragas (Altieri, 1994).

Quando estes modelos agrícolas foram exportados aos países do Terceiro Mundo, através da chamada Revolução Verde, se agravaram ainda mais os problemas ambientais e sociais. A maior parte dos agricultores de escassos recursos, da América Latina, Ásia e África, ganhou muito pouco neste processo de desenvolvimento e transferência de tecnologia da Revolução Verde, porque as tecnologias propostas não foram neutras quanto à escala. Os agricultores com terras mais extensas e melhor conservadas ganharam mais, mas os agricultores com menores recursos e que vivem em ambientes marginais perderam com maior freqüência e a disparidade dos ingressos foi acentuada (Conway, 1997).

A mudança tecnológica favoreceu principalmente a produção e/ou exportação de produtos comerciais produzidos, principalmente, pelo setor das grandes propriedades, com um impacto marginal na produtividade dos cultivos para a segurança alimentar, majoritariamente em mãos do setor camponês (Pretty, 1995). Nas áreas onde se realizou uma mudança progressiva da agricultura de subsistência para uma agricultura de economia monetária, se tornou evidente uma grande quantidade de problemas ecológicos e sociais: perda da auto-suficiência alimentar, erosão genética, perda da biodiversidade e do conhecimento tradicional, e incremento da pobreza rural (Conroy et al., 1996).

Para manter estes sistemas agroexportadores, muitos países em desenvolvimento se converteram em importadores de insumos químicos e de máquinas agrícolas, aumentando assim os gastos governamentais e exacerbando a dependência tecnológica. Por exemplo, entre 1980 e 1984, a América Latina importou cerca de US$ 430 milhões em pesticidas e uns 6,5 milhões de toneladas de fertilizantes químicos (Nicholls e Altieri, 1997). Este uso massivo de agroquímicos conduziu a uma enorme crise ambiental e de proporções sociais e econômicas imensuráveis.

É irônico o fato de que os mesmos interesses econômicos que promoveram a primeira onda de agricultura baseada em agroquímicos estão agora comemorando e promovendo a emergência da biotecnologia como a mais recente varinha mágica. A biotecnologia, dizem, revolucionará a agricultura com produtos baseados nos métodos próprios da natureza, conseguindo uma agricultura mais amigável com o ambiente e mais lucrativa para os agricultores, assim como mais saudável e nutritiva para os consumidores (Hobbelink,1991).

A luta global por conquistar o mercado está conduzindo as grandes corporações a produzir plantas desenvolvidas com engenharia genética (cultivos transgênicos) em todo o mundo (mais de 40 milhões de hectares em 1999) sem as apropriadas provas prévias de impacto sobre a saúde humana e os ecossistemas, a curto e longo prazo. Esta expansão recebeu o apoio de acordos de comercialização e distribuição realizados por corporações e marketeiros (por exemplo, Ciba Seeds com Growmark e Mycogen Plant Sciences com Cargill) devido à falta de regulamentação em muitos países em desenvolvimento.

Nos Estados Unidos, as políticas do Food and Drug Organization (FDA) e da Environmental Protection Agency (EPA) consideram os cultivos modificados geneticamente “substancialmente equivalentes” aos cultivos convencionais. Estas políticas foram desenvolvidas no contexto de um marco regulador inadequado e, em alguns casos, inexistente.

As corporações de agroquímicos, as quais controlam cada vez mais a orientação e as metas da inovação agrícola, defendem que a engenharia genética melhorará a sustentabilidade da agricultura ao resolver os muitos problemas que afetam a agricultura convencional e livrará o Terceiro Mundo da baixa produtividade, da pobreza e da fome.

Comparando mito e realidade, o objetivo deste livro é questionar as falsas promessas feitas pela indústria da engenharia genética. Eles prometeram que os cultivos produzidos por engenharia genética impulsionarão a agricultura para longe da dependência de insumos químicos, aumentarão a produtividade, diminuirão os custos de insumos e ajudarão a reduzir os problemas ambientais (Office of Technology Assessment, 1992). Ao questionar os mitos da biotecnologia, neste livro se mostra a engenharia genética como o que ela realmente é: outra trama tecnológica ou outra “varinha mágica” destinada a burlar os problemas ambientais da agricultura (que são o produto de uma trama tecnológica anterior) sem questionar as suposições defeituosas que ocasionaram os problemas pela primeira vez (Hindmarsh, 1991). A biotecnologia promove soluções baseadas no uso de genes individuais para os problemas derivados de sistemas de monocultura ecologicamente instáveis, desenhados sobre modelos industriais de eficiência. Tal enfoque unilateral e reducionista já provou que não é ecologicamente sólido no caso dos pesticidas, enfoque que também adotou um modelo semelhante usando o paradigma “uma praga – um químico”, comparável à proposta “uma praga – um gene” promovida pela biotecnologia (Pimentel et al., 1992).

A agricultura industrial moderna, hoje convertida em epítome pela biotecnologia, se baseia em uma premissa filosófica que é fundamentalmente errônea e que necessita ser exposta e criticada, para que dê lugar a uma agricultura verdadeiramente sustentável. Isto é particularmente relevante no caso da biotecnologia, onde a aliança da ciência reducionista com a indústria multinacional monopolizadora levou a agricultura para um caminho equivocado. A biotecnologia percebe os problemas agrícolas como deficiências genéticas dos organismos e trata a natureza como uma mercadoria e, além disso, torna os agricultores mais dependentes de um setor dos agronegócios que concentra cada vez mais seu poder sobre o sistema agroalimentar.